Nos últimos dois anos, uma nova queixa começou a aparecer no consultório com frequência crescente: pacientes em uso de Mounjaro, Ozempic, Wegovy ou semaglutida que perceberam queda capilar significativa, em geral, entre o terceiro e o sexto mês de tratamento. Algumas chegam assustadas. Outras chegam achando que é coincidência. Quase nenhuma foi avisada disso pela médica que prescreveu o medicamento.
Esse artigo é para esclarecer o que está acontecendo, por que acontece, e o que se pode fazer.
NÃO É O MEDICAMENTO. É O EMAGRECIMENTO.
Vou começar pelo que muitas vezes não se diz: o problema não é exatamente o Mounjaro. O problema é a velocidade do emagrecimento. Qualquer perda de peso significativa em curto prazo (mais de 5% do peso corporal em 3 meses) é, em si, um estresse metabólico. E o couro cabeludo é um dos primeiros lugares onde o corpo reage a estresse.
Tecnicamente, o que acontece é um quadro chamado eflúvio telógeno. Os folículos capilares têm um ciclo natural: passam por uma fase de crescimento (anágena, de 2 a 7 anos) e depois entram em uma fase de repouso (telógena, de 2 a 3 meses) antes de cair. Em situações normais, 10 a 15% dos seus cabelos estão em fase telógena. Quando há um estresse importante, como uma perda de peso rápida, uma porcentagem maior de folículos é “empurrada” para a fase telógena ao mesmo tempo.
E aqui está a chave: a queda só aparece 2 a 3 meses depois do gatilho. Por isso a paciente percebe a queda no quarto, quinto, sexto mês de uso do Mounjaro, quando o emagrecimento começa a se acumular. Não é falha do medicamento. É o organismo reagindo à mudança.
QUANDO DÁ PARA EVITAR
Em parte, sim. Há três fatores que aumentam o risco e que se pode controlar:
Aporte proteico baixo. Quem emagrece com Mounjaro tende a comer menos. Comendo menos, tende a consumir menos proteína. O cabelo é feito de proteína. Pacientes que mantêm aporte proteico adequado durante o emagrecimento perdem menos cabelo. Isso pede orientação nutricional específica, não dieta de internet.
Deficiência de ferro, zinco, vitamina D e B12. Comuns em quem está em déficit calórico prolongado. Investigar e suplementar quando necessário previne parte da queda.
Velocidade do emagrecimento. Quanto mais rápido, mais queda. Pacientes que perdem peso de forma mais gradual têm cabelo melhor preservado.

O QUE FAZER SE A QUEDA JÁ COMEÇOU
Primeiro: não pare o Mounjaro por causa do cabelo. Essa decisão precisa considerar o conjunto do tratamento, peso, controle glicêmico, saúde metabólica. Discuta com a médica que prescreveu.
Segundo: o eflúvio telógeno por emagrecimento é, em geral, reversível. O cabelo volta. Mas leva tempo, em geral, de 6 a 12 meses para recompor o volume original. E volta melhor com tratamento.
Terceiro: procure uma médica para diagnóstico tricoscópico. É importante diferenciar eflúvio telógeno (reversível) de outras causas de queda que podem coexistir, como alopecia androgenética (que se agrava com o estresse) ou deficiências nutricionais maiores.
TRATAMENTO DERMATOLÓGICO
Para casos de eflúvio telógeno por Mounjaro/Ozempic, o que faço em consultório:
Avaliação tricoscópica para confirmar diagnóstico e excluir outras causas associadas.
Exames laboratoriais: hemograma, ferritina, vitamina D, B12, zinco, hormônios tireoidianos.
Suplementação dirigida: aminoácidos específicos, vitaminas e minerais conforme exames.
Tratamento tópico: em geral, minoxidil em concentração adequada.
Procedimentos de estímulo: PRP capilar e MMP (microagulhamento com drug delivery) aceleram a recuperação em casos selecionados.
Orientação nutricional em parceria com profissional habilitada: porque sem a base alimentar, nenhum tratamento dermatológico sustenta resultado.
O QUE ESPERAR DO PROCESSO
Pacientes que iniciam tratamento dermatológico dentro de 60 dias do início da queda têm os melhores resultados. A recuperação visível, em geral, começa a aparecer entre 3 e 6 meses de tratamento, antes disso, é normal não enxergar diferença, porque o cabelo cresce devagar.
Por isso, na primeira consulta, sou direta: tratamento capilar pede paciência. Mas dá resultado, quando feito com diagnóstico médico, plano individualizado e retornos regulares.
ONDE ISSO ME COLOCA
Recebo pacientes com queda por Mounjaro semanalmente. Atendo em Sinop, na BellaDore, e em atendimentos mensais em Peixoto de Azevedo e Guarantã do Norte. Se você está nessa situação, ou se ainda não começou o medicamento, mas quer se preparar antes, vale uma avaliação dermatológica.


